Freguesia de Palme

História

Freguesia de Palme

Da Pré-História à idade Média

     A ocupação humana no território que corresponde à atual freguesia de Palme remonta a tempos muito recuados, havendo vários vestígios que comprovam a presença humana desde a pré-história, nomeadamente na zona correspondente ao planalto da Figueiró. Até à abertura da EN 103, no século XIX, o planalto da Figueiró era uma área relativamente remota e de difícil acesso. Nessa zona foram encontrados vários vestígios pré-históricos, que são difíceis de determinar, mas que Almeida (1993) situa no contexto do Megalitismo do Norte de Portugal (nos III e II milénios a.C.). Mas fora desta zona também foram encontrados artefactos muito antigos. Por exemplo, nas imediações do Mosteiro de Palme foi encontrado um sílex com cerca de 6000 anos. Outras peças de pedra trabalhadas em quartzite foram encontradas nos montes de Fragoso e de Carapeços, assim como vários restos arqueológicos da Idade do Bronze e do Ferro. Deste modo pode concluir-se que o Homem se fixou no território correspondente à atual freguesia de Palme e na sua envolvência há muitos milhares de anos atrás. Os testemunhos deixados pelos nossos antepassados são, por isso, de inegável valor histórico e patrimonial. Os mais importantes, alguns dos quais ainda podem ser observados nos locais originais, são constituídos pelas antas e pelos menires. O maior número destes monumentos, que remontam à Idade do Bronze e do Ferro e que se integram na chamada Civilização Castreja, foi encontrado, precisamente, no planalto da Figueiró.

     No perímetro de Palme são conhecidas quatro antas. Uma das antas conhecidas está localizada no Souto de Cerquido, perto da EN103. Trata-se de um monumento funerário pequeno, com câmara violada, com um “tumulus” e um corredor voltado para Nascente. Nos limites de Palme com Vila Cova está também implantada junto à EN uma anta com características idênticas, sendo conhecida por “mámua do Sobreiro do Rei”. Está localizada a curta distância da berma da EN103, a escassos metros do entroncamento do acesso a Vila Cova. Junto ao caminho que liga a referida EN a Bustelo, no lugar conhecido por Vilar, encontram-se mais duas antas. A primeira delas surge do lado esquerdo no sentido da EN 103 para Bustelo, numa bouça, a escassos metros de uma moradia que ali foi construída. É um monumento largo, de planta circular, com cerca de 20 metros de diâmetro por 1 metro de altura. Tem uma cratera de violação não muito profunda, mas muito abrangente. A segunda delas está distanciada a 950m da primeira, encontrando-se a cerca de 15m do muro do caminho que vai de Bustelo ao lugar de Sião. É bastante mais pequena, tendo 8m de diâmetro por 1,5m de altura. Tal como a anterior, esta anta apresenta uma cratera de violação, mas menos profunda.

     Quanto aos menires, o seu conhecimento e identificação ficou a dever-se aos trabalhos do Dr. Penteado Neiva, que levou a cabo um conjunto de prospeções arqueológicas no planalto da Figueiró, na década de 1970. O estudo permitiu identificar a existência de dois menires, que estavam localizados na divisória de Palme com Feitos, tendo sido posteriormente ambos deslocados. Estes dois menires em conjunto com os existentes no vizinho concelho de Esposende (S. Paio Antas, Forjães e S. Bartolomeu do Mar) formam o mais importante núcleo megalítico deste tipo de monumentos de todo o Norte de Portugal. Um dos menires é conhecido por “Marco da Zarelha” . Inicialmente estava localizado na Bouça do Quinhão, a escassos metros de uma das mámuas situadas no caminho para Bustelo. Em 1989, com as obras de alargamento deste caminho, o menir foi removido e foi colocado no largo defronte à sede da Junta dos Feitos, onde foi implantado numa espécie de vaso de tijolo e betão. Originalmente, o menir tinha 1,80 metros de altura, dos quais 0,40 metros estavam enterrados e encontrava-se ligeiramente inclinado para Sul. Como é comum neste tipo de monumentos, o menir tem uma forma fálica, que foi conseguida pelo adelgaçamento da sua parte superior e pela inclinação dada. Foi construído em granito grosseiro, o que explicará a maior erosão detetada na sua parte superior. Nesta há um chanfro retangular que foi mais tarde esculpido para dependurar uma cruz de madeira, com a qual o menir era decorado sempre que no caminho passava uma procissão a caminho de um calvário situado junto a Bustelo.

     O outro menir é conhecido por “Pedra do Coelho” e estava também localizado na divisória entre Palme e Feitos. A descoberta deste menir foi algo fortuita, pois ficou a dever-se à informação de um morador de Bustelo, aquando dos preparativos da remoção do Marco da Zarelha. Nessa altura, o previdente habitante informou os Serviços da Câmara que uma pedra idêntica havia sido enterrada ali próximo, na sequência das mesmas obras de alargamento do caminho. Com base nesta informação, os Técnicos do município resgataram o menir enterrado, que foi levado para o Museu Arqueológico de Barcelos, onde ainda hoje pode ser observado. A Pedra do Coelho tem características muito idênticas às do outro menir (dimensão, forma fálica, inclinação, existência de um chanfro), distinguindo-se por ter sofrido uma menor erosão e por possuir uma cruz esculpida na parte superior numa tentativa de “cristianizar a pedra”. O que não é possível determinar é se estes dois menires faziam parte de um conjunto mais amplo (de um alinhamento ou de um cromeleque), que foi destruído com o passar do tempo, ou se a sua proximidade era uma mera coincidência.

     No extremo Norte da freguesia, no limite com Aldreu, à face de um caminho de acesso florestal, encontra-se um menir de pequenas dimensões. Está inserido num muro numa curva de ângulo muito fechado, pelo que tem sofrido diversas escoriações provocadas pela passagem dos tratores, estando por isso em risco. Tem cerca de 1m de altura e 0,35m de largura. Apresenta um truncamento junto ao topo, bem como aquilo que parecem ser dois fossetes, numa tentativa aparente de decorar esta peça.

     Um outro local onde se encontram diversos vestígios da Civilização Castreja é o monte do Crasto. Este monte que atualmente está integrado na freguesia de Aldreu, mas que, em tempos, pertenceu à antiga freguesia de S. Salvador de Palme, guarda ainda o topónimo de um povoado castrejo da Idade do Ferro, que esteve implantado neste cabeço. Embora o tempo e a ação humana se tenham encarregado de apagar a maior parte dos seus vestígios, algumas prospeções permitiram detetar vestígios de vários períodos, desde a Idade do Ferro à Idade Média. Este castro era constituído por duas muralhas e um fosso, que estava localizado no exterior da muralha, a Nascente e que, atualmente, está atulhado. O povoado era dominado por uma pequena acrópole cuja defesa era assegurada pelas muralhas de pedra. No interior desta muralha são ainda visíveis o que resta das antigas casas de forma circular e retangular. É no espaço delimitado pelas muralhas que se têm encontrado vestígios de várias épocas, incluindo a tégula, o imbrex e a cerâmica castreja, mas também a olaria medieva (olas, potes, fundos de alguidares, etc.). A ligação do Mosteiro de Palme ao monte do Crasto surge num documento medieval onde é descrito que um tal de “Alfe Tamiel” foi doado em testamento ao referido Mosteiro. Almeida (1993) acredita que este “Alfe Tamiel” é precisamente o monte do Crasto. Apesar, como se disse, deste monte não estar no perímetro da atual freguesia de Palme, esteve-o em tempos, nomeadamente quando a freguesia de S. Salvador de Palme foi extinta e o seu perímetro (onde se incluía este monte) foi anexado a Stº André de Palme. Ainda hoje, a recente toponímia adotada nas ruas da freguesia guarda a memória deste monte, havendo um caminho batizado por “Calçada do Cresto” (“Cresto” é uma variação errada de Crasto que os residentes locais insistem em manter).

     Em suma, a histórica presença humana no território correspondente à atual freguesia de Palme, como não poderia deixar de ser, não foi um fenómeno isolado e enquadra-se no contexto da ocupação verificado na região envolvente. As características da área correspondente ao planalto da Figueiró (território isolado, com abundância de água e de solos férteis, nas proximidades de montes elevados) foram, na verdade, determinantes para a fixação dos nossos antepassados, pelo que a Figueiró e Bustelo poderão ter sido os sectores onde se instalaram os primeiros e os mais importantes povoados da atual freguesia. O próprio topónimo “Bustelo” deriva do baixo latim “bustellum”, que significa pastagem. O pastoreio de gado miúdo (cabras e ovelhas), que se fazia normalmente de forma comunitária através do sistema de vezeiras, deverá ter sido muito importante para a sobrevivência destas comunidades humanas. Ainda no século XVIII surgiam referências às “Besseiras” de Bustelo e aos diversos pastos de gado existentes na Figueiró e no Monte de S. Mamede (Feitos), como descreve o Padre Gomes nas memórias paroquiais de 1758.


Freguesia de Palme

Da Idade Média a finais do século XVIII

     A atual freguesia de Palme compreende uma área que, em tempos, esteve repartida por duas freguesias: S. Salvador de Palme e Stº André de Palme. Os registos mais antigos que se encontram são relativos à freguesia de S. Salvador, devido ao mosteiro beneditino que ali foi construído e que, atualmente, é conhecido por mosteiro de Palme ( na figura em anexo). A data de construção deste mosteiro não é conhecida, mas sabe-se que é anterior à fundação da Nacionalidade. A primeira referência documentada é de 1113, mas alguns autores consideram que a sua origem é mais antiga. De acordo com algumas teses, julga-se que, em tempos remotos, os terrenos onde o mosteiro foi construído pertenciam a uma quinta do fidalgo Lovesendo, filho de Sazi, que, em 1029, os doou à ordem de S. Bento para ali fundar um mosteiro, atribuindo-lhes muitas rendas e outros benefícios para o sustento dos monges. Uma outra teoria é a de que o mosteiro foi mandado edificar por um rei visigodo que fora curado por um monge. Porém, como o arquivo medieval se perdeu, não é possível assegurar como certos estes factos, nem constituir a história do mosteiro durante um largo período de tempo. Sabe-se, todavia, que, em 1213, o abade do mosteiro foi nomeado pelo Papa Inocêncio III para julgar o caso de um excomungado que morreu penitente. Num documento do séc. XIII (as Inquirições de 1258) é definida a contribuição que o mosteiro de Palme teria de dar à Coroa: «in judicato de Nevia Item in Moesteiro de Palmi, que do Couto desse devandito Moesteiro davam al Rey cada ano 23 maravedis; et leixou ao Moesteiro 3 maravedis, et Sancto Jacobo et Sancto Andre, que jazem in esse Couto, 1 maravedi, et dam os destes devandito Couto cada ano al Rey 19 maravedis: et vam ao Caetello» (Teotónio, 1987). O maravedi era a designação dada às moedas de ouro cunhadas pela Coroa. O número de moedas com que teria de contribuir para a Coroa dava já uma ideia da riqueza que o mosteiro tinha em pleno séc. XIII conseguida, em larga medida, pelas doações feitas pelos particulares, frequentes vezes para alcançarem a de remissão dos pecados. No séc. XIV sabe-se que o mosteiro figurava entre as numerosas propriedades de D. Berengária Aires (1302), que era aia da Rainha Santa Isabel. Os privilégios do mosteiro foram mais tarde confirmados por D. Pedro, D. João I, D. Duarte, D. Afonso V e por D. Manuel I. O mosteiro foi ainda administrado pelos abades Comendatários, leigos por norma poderosos, que eram nomeados pelo clero para administração dos mosteiros. Estes abades ficaram conhecidos por fazerem uma gestão ruinosa dos mosteiros por onde passavam, pois colocavam quase sempre os seus interesses pessoais à frentes dos eclesiásticos. O caso do mosteiro de Palme não foi exceção.  O último comendatário a administrá-lo foi o bispo da Guarda (D. João de Portugal), que tirava anualmente de renda do mosteiro mais de quinhentos mil réis, quantia muito avultada para a época (século XVI). Pouco depois, D. Fr. Bartolomeu dos Mártires efetuou a reforma do convento, por ordem do cardeal D. Henrique, corria o ano de 1568. Depois desta reforma, o convento voltou a ser administrado pelos monges beneditinos, que nele meteram Prior (1575), tomando o título de abade em 1588. Neste ano, o mosteiro foi incorporado definitivamente na Congregação Portuguesa, onde sempre foi um mosteiro secundário. Tão pobre voltou, porém, este convento para os beneditinos e tão sobrecarregado de obrigações que apenas podia alimentar meia dúzia de monges, número que contava à data da sua extinção, em 1834. Enquanto mosteiro beneditino, tinha couto e direito de apresentação nas freguesias de S. Bartolomeu do Mar, Stª Marinha de Forjães, Stº André de Palme, Santiago de Aldreu e Stº André de Teivães.

     Apesar de atualmente estar bastante arruinado, o mosteiro guarda ainda diversos elementos que atestam a sua opulência passada. À entrada surge um portão de ferro com o escudo dos Fonsecas Monizes e Castros, que foram os primeiros barões de Palme. De frente a este portão, foram construídos dois lanços de escadas que dão acesso a um patamar com o seu alpendre, que é hoje a entrada principal para o antigo convento. Por baixo desse patamar, encontra-se um interessante fontanário, onde foi colocado um lindo pórtico manuelino, que se julga ser o antigo pórtico do mosteiro. No perímetro do mosteiro pontificam grandes tanques, fontanários e pedras dispersas bem lavradas. Ao lado Norte da capela acha-se o antigo lagar de azeite para onde a água, proveniente de nascentes do monte do Crasto, vinha em caleiras de pedra suspensas em altas colunas. Igualmente de valor patrimonial é a capela do mosteiro de Palme. Trata-se de um pequeno edifício, constituído apenas pela capela-mor e por parte do corpo da igreja gótica do século XIV, vendo-se bem que foi cortado transversalmente e feita uma nova frontaria de estilo singelo. Dentro, a capela-mor é em abóbada de pedra artesoada, com florões nos fechos. Um outro elemento e que, infelizmente se está a perder, é a belíssima araucária (Araucaria brasiliensis) que se ergue junto ao mosteiro e que, ao que parece, foi um dos primeiros exemplares a ser introduzidos em Portugal. Dada a qualidade patrimonial do edifício e o carácter pitoresco do local, o mosteiro já acolheu artistas, diversas personalidades e serviu de pano de fundo à realização do filme "Julie Chevalier de Maupin". A freguesia de S. Salvador de Palme foi extinta no séc. XIX e o seu território (que era constituído pelos lugares do Mosteiro, de trás e de Bustelo) foi integrado na freguesia de Stº André de Palme.

     Em relação à freguesia de Stº André de Palme, as referências históricas são mais escassas. A primeira referência conhecida remonta a 1220 sob a designação de “Parvães” (topónimo que parece corresponder ao atual lugar de Brirães), mais tarde designou-se “Pavianos” e, finalmente, Palme, altura em que ficou subordinada ao mosteiro de S. Salvador de Palme. Nessa altura, a freguesia era orago de Santo André e vagaria da apresentação do abade do mosteiro beneditino de S. Salvador. O Padre António Gomes Pereira, refere que a palavra “Palme” vem do genitivo Palmae, da palavra latina palma, a palmeira. Era usual que os romeiros que vinham de regresso da Terra Santa trouxessem um ramo de palmeira, em reconhecimento do fim da romaria ou da peregrinação. Existia mesmo em Lisboa e no Porto Hospitais de Palmeiros, para acolher os peregrinos que vinham da Terra Santa e de outros santuários do cristianismo, como Santiago de Compostela. Aos peregrinos que traziam a folha de palmeira da Terra Santa chamavam-se “Palmeiros” e às terras onde fixavam a sua residência, “Palmeira”, “Palma” ou “Palme”. Parece, pois, ser esta a origem da designação da nossa terra.

     Do primeiro quartel do século XVIII (1725) data a igreja paroquial de Palme, como se pode comprovar pela inscrição existente na peanha onde está a figura em pedra do padroeiro da terra, Stº André. Porém, como observa Teotónio (1987), o facto da imagem ser muito pequena para a peanha onde está, sugere que terá pertencido ao edifício anterior desta igreja, que seria mais baixo e pequeno. Contudo, desconhece-se a fundação do templo primitivo da freguesia.

     Um outro aspeto que terá marcado a vida dos nossos antepassados que viveram no período medieval foi a passagem da rainha Santa Isabel na peregrinação que fez a Santiago de Compostela no ano de 1326. Os caminhos mais importantes que ligavam o Norte de Portugal a Santiago de Compostela eram o Caminho do Noroeste (Porto - Vila do Conde – Viana - Valença), o Caminho do Lima (Porto - Vila do Conde – Barcelos - Ponte de Lima - Valença) e o chamado Caminho do Norte, também designado por Caminho da Rainha. Após a travessia do rio Cávado em Barcelos, este percurso seguia por Abade de Neiva, Vilar do Monte, Feitos e Fragoso. O traçado do caminho passava a nascente de Bustelo, entre o monte de S. Gonçalo e o Olho Marinho ainda ali existente, de onde descia para a antiga ermida de S. Vicente (hoje capela de S. João) e daí para a ponte do rio Neiva. Apesar do traçado do caminho não atravessar o perímetro de Palme, a sua proximidade e a passagem de tão nobre peregrina deverá ter sido um acontecimento memorável para as gentes de Palme e das freguesias envolventes. Alguns relatos referem mesmo que a rainha terá pernoitado no mosteiro de Palme, mas não há provas concludentes a esse respeito. No entanto, a localização junto a uma antiga via romana reforça a ideia que o mosteiro de Palme poderá ter exercido um papel importante no apoio aos peregrinos que se deslocavam para Santiago de Compostela. Como refere Beirão (2002), Palme fazia parte de um outro caminho de Santiago que, do Porto, passava por S. Pedro de Rates, Barqueiros, Barca do Lago, Palme e Fragoso e daí para o couto de Capareiros (Barroselas). Este itinerário, que corresponde, em parte, ao troço da atual EM 305, resulta do aproveitamento de uma antiga estrada medieval que, por sua vez, foi decalcada a partir de uma via romana. Esta ideia não é nova, pois já em 1978, o estudo realizado por Almeida (1978) mostrava que estas freguesias eram atravessadas por uma estrada medieval, cujo traçado resultava de uma antiga via romana que passava por este território.


Freguesia de Palme

Do Século XIX à Atualidade

     As invasões francesas foram um dos acontecimentos mais marcantes da história portuguesa do início do século XIX. Em particular, a segunda invasão (1809) teve uma repercussão direta na região Norte do país. Os invasores, comandados pelo general Soult, romperam pela fronteira de Chaves, com a determinação de chegarem ao Porto. Nessa caminhada, os gauleses depararam-se com a resistência oferecida pelo exército e pelas milícias populares, de que resultaram várias batalhas, tendo sido uma das mais sangrentas a que se travou às portas de Braga, cidade que, no entanto, viria a cair nas mãos dos invasores. Daqui os franceses ocuparam diversas cidades, como Barcelos, e dirigiram-se para o Porto. Ao cabo de semanas de confrontos, o exército português, auxiliado pelas forças inglesas, deitou por terra os intentos do invasor, obrigando-o a bater em retirada por Barcelos e Ponte de Lima e daí para a Galiza. Na debandada, os invasores saquearam e vandalizaram o que puderam e envolveram-se em diversas escaramuças com as milícias populares. Há relatos que os barcelenses constituíram focos de resistência e emboscadas aos franceses, provocando-lhes diversas baixas, como sucedeu em Carvalhal. Na investigação efetuada, não há qualquer indício de que as tropas francesas tenham passado por Palme, nem à data da invasão, nem da sua retirada. Contudo há relatos de confrontos em freguesias próximas (Creixomil) e dos gauleses terem estado nos Feitos. Por isso, não será de excluir que os palmenses tenham participado nas milícias populares ou que tenham, de algum outro modo, reagido à presença próxima do inimigo.

     O ano de 1834 foi marcante na história da freguesia de Palme por dois acontecimentos. As reformas levadas a cabo pelos liberais determinaram a extinção das ordens religiosas em todo o país. Esta medida levou ao encerramento do mosteiro de Palme que à data da extinção contava já com um reduzido número de monges. Por conseguinte, o mosteiro e os terrenos envolventes foram desamortizados dos bens eclesiásticos e foram incorporados nos bens nacionais, tendo sido arrematados pela família Moniz de Moncorvo, mais concretamente pelo Bispo do Porto (D. António Bernardo da Fonseca Moniz). Por outro lado, 1834 corresponde também ao ano em que a freguesia de S. Salvador foi anexada à de Santo André, que passaram a ser conhecidas apenas por Palme. A fusão destas freguesias surge na sequência das reformas levadas a cabo nesta altura, que deram origem a um novo mapa administrativo, onde a nota dominante foi a redução do número de concelhos e de freguesias. A anexação de S. Salvador à freguesia de Santo André terá ficado a dever-se à maior dimensão demográfica e territorial desta última. Com este processo, os lugares de Bustelo, de trás e do Mosteiro passaram a ficar integrados na freguesia de Santo André de Palme, que viu assim aumentar o seu território. De notar que alguns anos mais tarde, o desenho territorial da freguesia foi novamente alterado com a anexação da freguesia de Feitos à de Palme. Esta fusão durou 60 anos, período durante o qual a freguesia foi designada por Palme e Feitos. As freguesias separaram-se novamente em finais de 1904 conforme o decretado no alvará do Governo Civil de 27/12/1904, publicado no Diário do Governo (nº 295) em 30/12/1904. Na segunda metade do século XIX, na sequência do Código Martins Ferrão, esteve iminente uma outra alteração administrativa que, contudo, não saiu do papel. O documento previa que Palme e outras freguesias limítrofes (como Fragoso) passassem a integrar o concelho de Esposende, mas esta proposta não foi avante, pois o referido Código não chegou a entrar em vigor, uma vez que foi alvo de forte contestação popular.

     Em meados do século XIX, Palme deu título a um baronato: o Barão de Palme. Trata-se do mais baixo dos títulos da nobreza (inferior ao de Conde ou de Duque, por exemplo), com o qual foi agraciado José Maria da Fonseca de Moniz, irmão do bispo do Porto que comprara o mosteiro. O primeiro barão de Palme ( na figura anexa) destacou-se pela determinação dos seus ideais e pela bravura com que os defendeu. Participou na Guerra Peninsular, combatendo as tropas Napoleónicas; esteve exilado em Inglaterra por ser contrário à governação absolutista de D. Miguel; da Inglaterra passou para a ilha Terceira, único ponto do país que não se subjugou ao domínio de D. Miguel; foi um dos bravos que desembarcou no Mindelo em 1832; lutou durante as guerras civis sempre ao lado dos liberais, tendo ficado ferido na batalha da Ponte Ferreira e na ação das linhas de Lisboa; participou nas lutas de Maria da Fonte; em 1846 e em 1851-52 foi Deputado na Assembleia, tendo também participado no movimento da Regeneração. Por esta intensa carreira político-militar, José Fonseca de Moniz viria a ser agraciado com o título de barão de Palme em 2 de junho de 1851. O seu corpo jaz na capela do mosteiro, num mausoléu de mármore que tem a seguinte inscrição:” Aqui jaz José Maria Fonseca de Moniz Barão de Palme brigadeiro do exército nasceu a 20 de dezembro de 1794 e faleceu em Lisboa a 20 de dezembro de 1862. Em testemunho de saudade fraterna”. Os barões de Palme que se seguiram foram D. Gertrudes Ermelinda Moniz e José Cardoso Moniz que eram respetivamente filha e neto do primeiro barão.

     Um dos acontecimentos históricos mais marcantes da freguesia de Palme no dealbar do século XX (1903) foi a passagem do rei D. Carlos pela nossa terra. As maiores manobras militares do tempo da monarquia ocorreram no reinado de D. Carlos. As ações militares foram realizadas sob o comando do Ministro da Guerra da altura, o General Luís Augusto Pimentel Pinto. O palco das operações foram os montes das freguesias de Feitos, Palme e Fragoso. Os exercícios militares aconteceram nos dias 15-18 de setembro de 1903 e foram presididos in loco pelo rei D. Carlos e pelo infante D. Afonso. Consta-se que as manobras atraíram um grande número de populares e de curiosos. Um deles, que viria a ficar conhecido por Zé Maneta, terá encontrado uma peça de artilharia que, ao manuseá-la, lhe explodiu nas mãos. Na sua viagem para assistir às manobras, o rei D. Carlos mandou levantar uma tenda junto à atual EN103, à sombra de um sobreiro, que viria a ficar conhecido por “Sobreiro do Rei” que ainda não há muitos anos podia ser admirado por quem por ali passasse. Segundo os relatos da época, este acontecimento atraiu muitos populares que acorreram ao local com o intuito de lobrigar o Rei, o que não foi tarefa fácil, pois de acordo com testemunhos da época, a tropa, montada a cavalo, formava um círculo de segurança em torno dos elementos da comitiva. Idêntico espanto e assombro deve ter causado aos populares o automóvel em que D. Carlos viajava, pois muitos deles jamais teria visto tal veículo motorizado que, muito provavelmente, foi o primeiro a percorrer os caminhos da nossa terra.

     Ainda no início do século XX, um outro aspeto digno de relato relaciona-se com a venda da valiosa biblioteca do mosteiro de Palme. A coleção de livros que os monges deixaram atrás de si despertou o interesse de um alfarrabista de Lisboa (Manoel dos Santos), que se meteu ao caminho para tentar fazer negócio com o herdeiro do antigo bispo do Porto, para quem a posse do mosteiro transitara. Depois de pernoitar na cidade de Viana do Castelo, o alfarrabista deslocou-se de comboio até Barroselas, onde alugou um carro de tração animal que o trouxe até Palme. O pitoresco desta história reside na recusa do caseiro do mosteiro em servir carne ao esfaimado alfarrabista, uma vez que era sexta-feira e era necessário guardar a abstinência. Valeu-lhe a intervenção de dois padres que, entretanto, surgiram e, depois da visita à livraria com o Fidalgo, lá condescenderam que o faminto almoçasse uma pratada de ovos com chouriço, devidamente regada com vinho verde. O negócio com o Fidalgo viria a consumar-se algum tempo depois. A ampla e valiosa coleção de livros do mosteiro viria a ser vendida a partir do dia 5 de abril de 1915 em Lisboa. O alfarrabista vendeu 1153 lotes da biblioteca, os quais renderam 2465$77, sendo conhecida uma relação das pessoas que compraram os livros. Os títulos do livro do mosteiro de Palme constam de um inventário de 1834.

     Como é sabido, o princípio do século XX ficou marcado pela I Guerra Mundial, conflito no qual Portugal participou contra os Impérios do Eixo. O Corpo Expedicionário Português enviado para combater na Flandres contou com vários homens naturais de Palme. Três deles tombaram em combate em França: um segundo cabo (João Joaquim de Sá Faria) e dois soldados (Adelino de Sá e Manuel Faria). O flagelo da guerra viria a chamar mais portugueses nas décadas de 1960/70 (Guerra Colonial), conflito em que caiu em combate mais um Palmense.

     O ano de 1939 ficou na memória de todos por causa de um fenómeno de origem natural que se abateu sobre Palme e sobre as freguesias vizinhas. Nesse ano, uma forte intempérie provocou uma enxurrada de invulgar capacidade destrutiva, que atingiu Palme, mas também Feitos, Aldreu e Fragoso. A borrasca atingiu mais severamente os lugares situadas na encosta do monte. A força das águas destruiu tudo à sua passagem, incluindo algumas azenhas que estavam instaladas ao longo dos ribeiros. Uma delas foi arrastada até à ponte da Aldeia, obstruindo a passagem da água que, por esse motivo galgou o tabuleiro da ponte. O caudal da água foi tanto que chegou às janelas de algumas habitações localizadas perto do ribeiro da Aldeia. Os terrenos junto ao ribeiro também foram atingidos, tendo ficado atulhados de areia e de pedregulhos que foram arrastados monte abaixo. Apesar dos contornos violentos do fenómeno, não houve vítimas a lamentar.

     O início do século XX foi também marcado por uma questão administrativo-eclesiástica que viria a deixar sequelas para as décadas seguintes, pois tanto a freguesia de Palme como a de Aldreu reclamavam a posse do mosteiro. O ponto principal da discórdia relacionava-se com o traçado da divisória entre as duas freguesias: Aldreu reclamava que o limite administrativo passava bastante mais a Sul do que era considerado até então, pelo que o mosteiro estava integralmente localizado na freguesia; Palme contestava que o limite obedecia a um traçado antigo e que não podia ser alterado, o que implicava que o mosteiro continuasse em Palme, facto que estava até na origem da própria designação do mosteiro. Do ponto de vista religioso, a contenda serenou com a sentença do Tribunal Eclesiástico de Braga de 14-01-1929, que determinou que, eclesiasticamente, o mosteiro pertence à freguesia de Palme. Escudado nesta decisão, o pároco de Palme continuou a deslocar-se ao mosteiro para celebrar uma das missas dominicais, num gesto de afronta que, obviamente, não era do agrado da população de Aldreu. O Padre Francisco Ribeiro, de Palme, foi um dos que mais se insurgiu contra a integração territorial do mosteiro em Aldreu, posição que por diversas ocasiões lhe pôs em perigo a integridade física aquando das suas incursões à freguesia vizinha. Acicatados pelos clérigos, os populares deram mostras do seu desagrado e a convivência entre as duas freguesias foi difícil durante anos por causa desta questão. As placas identificadoras das freguesias eram o alvo preferencial do desagrado dos populares, sendo frequentemente vandalizadas e repelidas para os locais considerados como limite correto pelos populares de cada freguesia. Só nos últimos anos esta questão parece ter serenado, com a resignação dos de Palme, embora o traçado da divisória ainda não seja um assunto consensual. A própria localização das placas identificadoras das freguesias na EM 305 é disso um bom exemplo, pois sugere que há ali alguns metros de terreno que são disputados por ambas as freguesias.

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